O Réquiem de Durante

Otto Drechsler, alemão naturalizado brasileiro nos anos 70 e radicado no Rio de Janeiro, era engenheiro de som (produção e edição), considerado um mestre da gravação no Brasil. Até falecer, em dezembro de 2018, trabalhou para numerosos artistas da música clássica e popular no país e era conhecedor e apreciador da música lírica. Conhecia o Ars Nova há vários anos, tendo feito o trabalho de gravação da Missa Afro-Brasileira em 1989 quando, no início do ano 2000, apareceu em Belo Horizonte trazendo uma história que nos surpreendeu a todos. Junto com ela, uma fascinante proposta de trabalho.

Otto contou que, muitos anos antes, durante uma viagem à Alemanha, bisbilhotando em um sebo na cidade de Dresden encontrou as partituras, em cópias manuscritas antigas, de uma das duas Missas de Réquiem de autoria de Francesco Durante, compositor italiano do século XVIII, considerado um mestre da composição da música coral e um dos grandes nomes da música sacra do período. Quando viu o que tinha nas mãos, não teve dúvidas: comprou as partituras e as trouxe para o Brasil, guardando-as consigo durante muito tempo, pois queria ouvir e gravar aquela obra com o Ars Nova e nenhum outro coral. E mais: de acordo com ele, seria o primeiro registro mundial em gravação comercial da “Missa de Réquiem a oito vozes em Dó Menor” de Francesco Durante, escrita para cinco solistas, coro misto duplo e orquestra. 

Filho de um sacristão e cantor de igreja, Durante nasceu em 1684 em Frattamagiore, perto de Nápoles e faleceu em 1755, em Nápoles. Há poucas informações sobre sua formação de compositor e cembalista e sobre seus estudos musicais, mas afirma-se que foi aluno de Alessandro Scarlatti, o autor do “Exsultate Deo” tantas vezes cantado pelo Ars Nova. Sua carreira didática começou, aliás, em substituição ao próprio mestre no Conservatorio Sant’Onofrio, uma das tradicionais escolas de música de Nápoles. Teve discípulos famosos, entre eles Giovanni Baptista Pergolesi.  Foi um dos poucos compositores italianos a nunca compor uma ópera, mas era altamente respeitado como compositor de música sacra e como professor. Segundo alguns autores, na área da composição para coros, seu único rival foi Händel. Rousseau o considerava “le plus grand harmoniste d’Italie”. Assim, uma figura de importância na música do período barroco italiano, porém pouco conhecida em nosso meio e, até então, ausente no repertório do Ars Nova, poderia ter uma obra sua gravada por nós pela primeira vez no mundo. Desnecessário dizer que a proposta de Otto foi aceita com entusiasmo. 

As partituras foram editadas, começaram os ensaios e o trabalho de gravação foi planejado e executado por Otto e sua equipe no auditório da Fundação de Educação Artística, no ano de 2000. Se não nos falha a memória, Otto encarregou-se ainda de buscar os recursos financeiros e de contratar a empresa encarregada da finalização e da distribuição dos CDs.

O trabalho instrumental foi feito por uma orquestra de câmara formada por componentes da Orquestra MUSICOOP, com Regina Lacerda no órgão contínuo. O Ars Nova, que na ficha técnica do disco consta equivocadamente como Coral da Universidade do Estado de Minas Gerais, teve como preparadores vocais seus cantores Suely Lauar e Helcio Pereira e, como solistas, os sopranos Lilian Assumpção e Luciana Monteiro de Castro, o contralto Rita Medeiros, o tenor Marcos Thadeu e o barítono José Carlos Leal. O maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca e seu assistente Rafael Grimaldi trabalharam com dedicação e sensibilidade, percebendo e transmitindo a beleza da obra e afirmando a importância do seu registro inédito.

Depois de finalizado em alta definição pela empresa alemã Mazur Media GmbH, em 2001 o CD foi lançado e distribuído na Alemanha como primeira gravação mundial, como consta na capa. Uma pequena parcela da tiragem foi enviada ao Brasil e todos os participantes receberam um exemplar do produto final. O resultado do registro sonoro é de alta qualidade, como se poderia esperar dessa união de competências na última parceria de trabalho do Ars Nova com Otto Drechsler.

O CD possui apresentação bem cuidada, com encarte contendo a ficha técnica (incompleta por faltarem os nomes dos coristas e dos músicos da orquestra) e um texto em inglês, alemão, francês e português sobre o compositor, a obra e os intérpretes, elaborado pelo próprio Otto com citações resumidas de um livro sobre Durante escrito por Andrea Della Corte. É interessante notar que o disco inclui uma faixa com a gravação, feita previamente, do “Magnificat” de Manuel Dias de Oliveira, compositor do período colonial brasileiro, contemporâneo de Durante. No seu texto, Otto Drechsler justifica a inclusão da peça por mostrar ser inegavelmente influenciada pelos compositores da Escola Napolitana. 

A mesma gravação encontra-se disponível em plataformas de streaming, (Spotify, Deezer), porém obtida de um relançamento da obra datado de 2008 e feito por outra empresa licenciada, com apresentação diferente da original e que se encontra à venda em uma conhecida loja virtual internacional. Um canal do YouTube com quase sete mil inscritos publicou, em 2015, um vídeo com a gravação completa onde constam os créditos principais e os mesmos dados do relançamento de 2008.

Como se pode obter em sites de busca na internet, essa Missa de Réquiem de Francesco Durante, ao que parece só veio a ser gravada novamente em 2016 pelo coro inglês Christ Church Cathedral Choir, de Oxford, que existe há 500 anos. A versão da Missa gravada por esse coro também foi transcrita a partir de uma cópia antiga – uma das mais de cinquenta que existem espalhadas pela Europa, segundo informado no site do grupo – e editada pelo seu regente atual, Stephen Darlington, sendo executada pela primeira vez para essa gravação.

O fato de ter sido apenas gravado, mas não produzido, finalizado e distribuído no Brasil provavelmente ajudou a fazer com que esse maravilhoso trabalho do Ars Nova tivesse ficado pouco conhecido no mundo da música coral no nosso país. Sua apresentação no cenário artístico de Belo Horizonte se deu em Novembro de 2002, em duas noites de concerto, no Teatro Sesiminas e no Grande Teatro do Palácio das Artes, numa bela e impactante montagem dramatizada, concebida e dirigida pelo ator Cacá Carvalho, com figurinos criados especialmente para o evento e a participação da Orquestra de Câmara do Sesiminas e de Eduardo Ribeiro no órgão positivo. O espetáculo, produzido com o patrocínio de várias empresas, foi realizado pela Associação Cultural Ítalo-Brasileira (Acibra-MG) em homenagem in memoriam ao maestro Sérgio Magnani, primeiro regente do Ars Nova, falecido em 2001 e que teria declarado que “se um dia houver uma homenagem à minha pessoa, gostaria que fosse um Réquiem”. 

Cartaz do concerto “Missa de Réquiem” no Palácio da Artes. Foto: Jaques Diogo.

Não conseguimos encontrar muitos registros desse evento que está entre os mais importantes nos últimos anos de atividade do coro, antes de sua interrupção em 2008. Mas na nossa memória certamente irão permanecer registrados aqueles momentos de rara beleza proporcionados por uma obra que, passados 300 anos, o Coral ajudou a revelar ao mundo moderno ao gravá-la pela primeira vez, depois que Otto Drechsler a encontrou e identificou com a qualidade sonora e artística do grupo. Essa é uma história que, assim como outras, o Ars Nova merece ter incluída em um lugar muito especial na sua própria história.

Ana Lana, contralto (1967 a 1971 / 2001 a 2004)

Com a ajuda do Núcleo Histórico, em especial a de Jaques Diogo, tenor (1992 a 2007)

Belo Horizonte, abril de 2020

O Ars Nova e o mundo

Concerto do Ars Nova no Philharmonic Hall, Lincoln Center, em abril de 1969

Tudo começou no final do ano de 1967. O Ars Nova ainda não completara dez anos de existência, mas era prestigiado em Minas e conhecido em várias regiões do Brasil, já tinha participado de eventos nacionais importantes e gravado o seu primeiro disco, “Missa em Aboio”. Era um coral respeitado no nosso meio, mas desconhecido no exterior, quando foi convidado a se apresentar em concerto, em um processo de seleção para o II Festival Internacional de Corais Universitários, organizado pelo Lincoln Center for the Performing Arts, em New York, EUA. O Festival que iria reunir corais universitários de quatorze países dos cinco continentes seria realizado em março/abril de 1969, com apresentações e encerramento no Philharmonic Hall, hoje Avery Fisher Hall, um dos teatros do complexo do Lincoln Center e uma das importantes salas de concerto do mundo. 

Na noite de 03 de dezembro o Ars Nova foi selecionado para representar o Brasil pelo diretor do Festival, James R. Bjorge, em concerto na igreja da Pampulha, quando apresentou a “Missa a quatro vozes (1640)” de Monteverdi e os “Sechs lieder im Freien zu singen” opus 59, as seis canções de Mendelssohn que gerações de arsnovenses adoram e que muitos, como eu, guardam até hoje na memória. Foi quando o coral viu pela primeira vez a possibilidade de se apresentar no exterior, no que seria também a primeira viagem internacional para uma grande parte de nós, cantores. Durante todo o ano de 1968 (aquele que, segundo alguns, não acabou…), trabalhamos intensamente para captar recursos e concretizar a magnífica chance de visitar os Estados Unidos e cantar em um evento que prometia ser uma experiência única, como nos relataram o maestro Afrânio Lacerda e sua esposa Edla, participantes da primeira versão do Festival, em 1965, com o Madrigal da Universidade da Bahia. 

Depois de um ano de campanha, conseguimos a quantia necessária para a viagem e, em março de 1969, voamos para New York. Começava a grande aventura que, como outras que aconteceram na vida do coral, teve momentos inesquecíveis e muitas histórias que já são parte do seu extenso imaginário. Aqui neste espaço, fico com alguns encontros, fatos e impressões que me marcaram como coralista e, em particular, como pessoa e que em mim repercutem até hoje, cinquenta anos depois.

A participação no Festival começou com uma turnê de três semanas, em viagem de ônibus por algumas cidades da região de New England, na costa leste do país, cujas Universidades estavam encarregadas de receber e hospedar os corais e de organizar concertos para as comunidades locais. Era a segunda metade do inverno no hemisfério norte. Fazia bastante frio e nevava quando tivemos a primeira parada em Oneonta, uma pequena cidade do estado de New York, onde fomos recebidos por um grupo de estudantes da Universidade Estadual que nos acolheu. Curiosos e interessados em nos conhecer e atender, eles compartilharam suas habitações na moradia estudantil, orientaram nossa movimentação dentro do campus, assistiram e aplaudiram o concerto e – para nossa surpresa e alegria – estariam presentes na nossa apresentação no Lincoln Center, quase um mês depois. Lembro-me da imagem do jovem em uniforme do exército, pronto para embarcar para o Vietnam e de alguns outros rapazes e moças com os quais nos correspondemos por cartas durante algum tempo, depois que voltamos ao Brasil. Não posso deixar de mencionar que com um deles, Claude Chaney, à época estudante de Letras e até recentemente professor da rede pública em New York, eu retomei o contato em 2009, quarenta anos depois, através das redes sociais e pude me reencontrar pessoalmente, há poucos anos.

A certa altura da turnê, paramos em Washington D.C onde cantamos em concerto na Catedral Nacional, uma grande construção em estilo gótico, juntamente com dois ou três dos dezesseis corais participantes do Festival. A renda do concerto fez parte da arrecadação de fundos para a criação da John F. Kennedy Foundation for the Performing Arts, em cuja inauguração, dois anos depois, deu-se a estreia da “Missa” de Leonard Bernstein. Sentimos que participávamos de algo importante, ao ver o senador Ted Kennedy (o irmão Bob tinha sido assassinado em junho de 1968), sentado ao lado da esposa Joan em uma das primeiras filas dos bancos da Catedral.

Na última semana, em New York, o Philharmonic Hall abriu-se para as apresentações de cada um dos dezesseis corais e para o grande concerto de encerramento do Festival. Seria muito difícil sequer tentar descrever todas as experiências vividas durante aquela semana e poder dizer quais, dentre muitas, marcaram mais a mim e aos meus colegas: se a do nosso concerto, como o único coro aplaudido de pé; se a de ouvir e entrar em contato com os excelentes corais de outros países, outras culturas; ou ainda a de ter cantado junto com eles, acompanhados pela orquestra da Julliard School e sob a regência do grande Robert Shaw, as três belas obras – o Te Deum, de Verdi, a Missa em Ré menor (Lord Nelson), de Haydn e a Sinfonia dos Salmos, de Stravinsky – no concerto de gala. Como musicista, eu diria que todas foram vivências maravilhosas, tremendamente importantes, impossíveis de serem esquecidas. 

Mas a experiência, igualmente inesquecível, que mais me marcou como pessoa e cuja lembrança até hoje me emociona foi a de um momento que não estava programado e que nos apresentou, de forma bela e tocante, o canto como forma de resistência em tempos de opressão. Um dos corais americanos presentes no Festival era o Morehouse College Glee Club, fundado em 1911, um coro masculino de afro-americanos do Altlanta University Center, na Georgia. Seus cantores já tinham se aproximado de nós brasileiros, interessados na nossa música e na nossa cultura. Da história e da cultura deles nós não sabíamos muita coisa, como vimos pouco depois.

Na noite de gala, logo após o concerto de encerramento, todos os participantes foram chamados ao saguão do teatro para uma festa de congraçamento regada a champagne – e era praticamente só o que foi servido, champagne à vontade – cujo efeito se somou à alegria que nos tomava e que queríamos expressar, celebrando, livres de tensões, aquela noite. Com alguns minutos de festa já estávamos, coralistas do mundo inteiro, cantando e dançando, quando os rapazes do Morehouse chegaram dando as mãos a todos para formar uma imensa roda e começaram a cantar e a nos mostrar como cantar “We shall overcome”, o hino de resistência da luta pelos direitos civis que já foi adotado por movimentos semelhantes ao redor do mundo. 

Morehouse College Glee Club apresentando “We shall overcome” em 2009

O Morehouse College é a alma mater de muitas comunidades afro-americanas e de líderes como Martin Luther King, Jr., morto a tiros apenas um ano antes, em abril de 1968 e em cujo funeral o Glee Club havia cantado. Durante os anos 60, seus alunos estavam ativamente envolvidos nos movimentos pelos direitos civis em Atlanta e, naquela noite no Lincoln Center, manifestaram a sua luta de uma linda forma, ao seu país e ao mundo. Tudo isso era praticamente desconhecido de nós, jovens brasileiros vivendo os anos duros da ditadura militar, em um país calado pela Censura; de fato, hoje vejo o quão pouco eu e meus colegas sabíamos sobre o “Civil Rights”, esse movimento que mudou a história dos Estados Unidos e que permanece na memória coletiva da sociedade americana. 

Não sei exatamente quantas vozes se uniram naquele canto, das seiscentas que, poucas horas antes, cantavam juntas no palco do Philharmonic Hall. Mas sei que foi assim, de mãos dadas com coralistas de quatorze países dos cinco continentes, entoando um hino de amor à liberdade, emocionados, mas talvez sem alcançar inteiramente o profundo significado daquele momento, que o Ars Nova encerrou a sua primeira experiência internacional, em uma grande festa que reuniu alguns dos melhores corais universitários de todo o mundo. 

Os anos 60 certamente acabaram. Mas, para muitos da minha geração, se alguns ecos dos seus momentos mais sombrios agora ameaçam ressoar, ainda ressoam fortes aqueles outros ecos de momentos belos como os que nós, arsnovenses da época, vivemos nessa primeira aventura fora do país. E eu, teimosamente, quero continuar acreditando que, apesar de tudo, eles vão permanecer ressoando, por muito tempo, nos nossos corações e mentes e, quem sabe, também nas nossas vozes, no nosso canto.

Coda

Pouco depois de retornarmos ao Brasil, deu-se um fato curioso. Lourdinha Melo, soprano, uma das figuras icônicas do coral, tinha uma amiga que era vidente e que contou a ela que o Ars Nova faria uma viagem internacional naquele ano de 1969. Lourdinha contou que a viagem já tinha acontecido, mas a amiga insistiu em afirmar que ainda iria acontecer. Ficamos intrigados e achamos graça na história até receber a notícia de que, em setembro, iríamos participar do Concurso Latinoamericano de Coros, em San Miguel de Tucumán, Argentina. Viajamos a Tucumán e conquistamos o 2º lugar (perdendo para o Coral do Chile), além do prêmio “Plaqueta de Oro”. Mas um dos críticos presentes ao concerto deixou escrito que o Ars Nova era o verdadeiro merecedor do 1º lugar. 

A vidente acertou e o Ars Nova, com a devida ressalva, também.

Ana Lana, contralto

Belo Horizonte, fevereiro de 2020

Ars Nova e eu

… e você, e nós, e todos nós!

Foi em 1959 que tudo começou e em abril se formalizou. Hoje eu completo 60 anos, 8 meses e 45 dias de Ars Nova. Explico: são cerca de 32 anos como membro de seu corpo coral, no naipe dos baixos (e entre este tempo alguns anos como coordenador do grupo) e 28 anos, 8 meses e 45 dias  acompanhando sua trajetória, assistindo aos seus concertos, sugerindo, aconselhando, apoiando, ajudando a transpor obstáculos, torcendo por seu sucesso, reunindo, compartilhando êxitos e fracassos, vivendo preocupações, colaborando com as possibilidades futuras, realizando encontros, enfim, vivendo dentro e fora da trajetória do grupo e ainda retornando ao seu corpo coral, junto com ex-companheiros para voltar cantar, com os jovens cantores atuais, nas inesquecíveis comemorações dos 60 anos de atividades.  

A experiência enriquecedora de participar ativamente de atividades artísticas de alto nível só se pode medir pelos benefícios auferidos para toda uma vida.  Imaginem o ganho que conseguimos com o companheirismo, a união, o trabalho, a harmonia, aceitação, a heterogeneidade de um grupo durante milhares de ensaios, reuniões, exercícios, preparação vocal, estudos, aulas e centenas de concertos, viagens, conforto e desconforto, aceitação e amizade, colaboração e respeito mútuos, além do natural cansaço e nervosismo como consequência inevitável. Tudo isto vivemos e sentimos, tendo como resultado a alegria da tarefa realizada e o orgulho de vê-la transpondo os tempos e se firmando no universo musical de seu país. Isto é possível com talento, trabalho e perseverança, reunindo mais de 450 cantores, seis maestros titulares e outros tantos auxiliares, além de maestros convidados e do trabalho administrativo, de organização e disciplina realizado pelos seus próprios integrantes. 

Impossível detalhar os milhares de episódios alegres, dramáticos e quase trágicos que ocorreram nesta trajetória, mas todos nós os sentimos e recordamos. Cantamos em cerca de 150 cidades de 18 países de três continentes. Nosso primeiro regente foi o Maestro Sérgio Magnani  que se empolgou com o entusiasmo de um grupo de jovens e que se prontificou a dirigi-los para espanto geral, quase todos egressos do coral universitário que fora extinto um ano antes. Este encontro impactante deu vida, segurança e nível artístico ao trabalho inicial.  A todo este momento inusitado, seguiu-se outro com a chegada da Europa em 1963/1964 do Maestro Carlos Alberto Pinto Fonseca, que viria a dar forma definitiva aí coral, com seu talento, entusiasmo, conhecimento e competência.

O Ars Nova fez e ainda faz história, a qual já é, desde o princípio, conhecida dos jornais, revistas, TVs, pelas gravações e pela sua participação ativa e constante em concertos, festivais e concursos.  Esta história pode ser sintetizada em alguns aspectos que podem ser contados pelas seguintes palavras: entusiasmo, trabalho, emoção, talento, competência, disciplina, organização, objetivo e apoio.

Uma história de entusiasmo de um grupo de jovens.

Uma história de muito trabalho constante e por vezes cansativo.

Uma história recheada de emoções.

Uma história baseada no talento dos regentes e dos cantores.

Uma história concretizada pela competência.

Uma história de disciplina, sem a qual nada se pode realizar.

Uma história feita com organização mantida por seus membros.

Uma história visando sempre o objetivo de realizar a melhor apresentação de uma obra musical no mais alto nível artístico.

Uma história que contou com o apoio de entidades como a UEE, no seu início e, de lá até hoje, pela UFMG, sem o qual talvez não tivéssemos conseguido este resultado.

E hoje, às vésperas de seus 61 anos de atividades e respeitando e enaltecendo todos aqueles que mantiveram viva e acesa a história e a difusão do canto coral, com seu encantamento e inconfundíveis sons dos mestres, queremos reverenciar os primeiros 45 anos que deram os elementos para a formatação dos pilares que hoje sustentam a obra que se perpetua. Agradecemos a Rafael Grimaldi, a Willlsterman Sottani, a Iara Fricke Matte e, agora, a Lincoln Andrade, manifestando todo o nosso orgulho de Arsnovenses de ontem, de hoje e de sempre. Estamos todos conectados e o fio de ligação é o Ars Nova, em que o momento de cada um está gravado indelevelmente em sua memória física e emotiva.

E, para finalizar, uma frase eu sempre digo: A gente sai do Ars Nova, mas o Ars Nova não sai da gente. 

Márcio José Veloso, baixo

Belo Horizonte, 16 de janeiro de 2020

A grande chance

Ars Nova programa televisivo “A grande chance”, em 1969

Corriam os últimos meses de 1968 e os primeiros de 1969. Convidado para representar o Brasil no II Festival de Corais Universitários, organizado pelo Lincoln Center for the Performing Arts, de New York e realizado em março/abril de 69, o Ars Nova se preparava para sua primeira viagem internacional. O convite havia chegado oficialmente depois que o coro foi ouvido em um concerto na igreja da Pampulha em dezembro de 1967 pelo diretor do Festival, James R. Bjorge, encarregado de selecionar os corais participantes. 

O Ars Nova estava chegando ao final de um ano de campanha de arrecadação de fundos, o que incluía visitar e “passar o chapéu” em empresas e órgãos oficiais (naquela época não havia lei de incentivo de nenhum tipo e o país vivia os anos mais duros da ditadura militar), além de apresentações com cachê, sem ter ainda conseguido o montante necessário para a viagem. Nos anos 60, realizar uma viagem internacional com cerca de 40 pessoas constituía verdadeira façanha e, para o coro, era a primeira experiência desse tipo.

Na reta final da campanha, no início de 1969 e com o grupo ainda sem saber se conseguiria viajar, surgiu a oportunidade de participar de um programa de auditório da antiga TV Tupi, no Rio de Janeiro, comandado pelo apresentador Flávio Cavalcanti e intitulado “A grande chance”. Flávio era figura polêmica, de estilo contundente e crítico mordaz da música popular brasileira, sendo conhecido, entre outros hábitos, pela prática de, na frente das câmeras, quebrar o disco de vinil de algum artista de cuja música ele não tinha gostado. 

“A grande chance” estreou em 1967 e foi o primeiro programa ao vivo da TV a ser exibido em rede nacional via Embratel, transmitido por 16 ou 18 emissoras de todo o país, além de mais de 120 estações de rádio. Nele se apresentavam calouros, bem como cantores e instrumentistas em busca de publicidade para os seus projetos. Artistas iniciantes tinham a chance de se lançar e os já conhecidos, de divulgar seu trabalho mais recente ao se apresentar diante de Flávio e de um júri formado por músicos, jornalistas, críticos musicais e pessoas ligadas às artes em geral. Já fizeram parte desse júri o letrista, produtor e escritor Nelson Motta, as cantoras Maysa e Aracy de Almeida, o compositor Fernando Lobo (pai do também compositor Edu Lobo), os maestros Cipó e Erlon Chaves, o estilista Denner e as atrizes Leila Diniz e Vera Fischer. Quando o Ars Nova lá se apresentou, entre os jurados estavam o compositor Sérgio Bittencourt, o compositor e produtor musical Mariozinho Rocha, hoje na Globo, os jornalistas Hugo Dupin e Carlos Renato e o pianista Bené Nunes – sim, aquele mesmo da letra de “Coroné Antônio Bento”, do Tim Maia. Muitos músicos conhecidos foram revelados ou passaram pelo programa no início da sua carreira, como o cantor Emílio Santiago e as cantoras Alcione, Leci Brandão e Áurea Martins. Os calouros recebiam notas e comentários do júri, seguidos muitas vezes de debates e demonstrações de erudição, da parte dos jurados mais rigorosos e exigentes. 

O Ars Nova fez duas apresentações no “A grande chance”, em ambas hors concours. A primeira foi em janeiro de 1969, no final da campanha e a segunda, dois meses depois, como agradecimento e despedida do Brasil, já preparado para ir representar o país, pela primeira vez, em um evento internacional e – detalhe importante – ao lado de corais de Universidades dos cinco continentes; era o coro representando o Brasil e mostrando, no exterior, o canto coral que era feito na UFMG. No programa do Flávio, no horário nobre, em rede nacional, o Ars Nova pôde mostrar a todo o Brasil que era um coro maduro e capaz de representar, com brilho, estilo e beleza, o seu país e a sua Universidade em um importante festival internacional.

Eu estava lá, mas depois de todo esse tempo, restaram poucas lembranças de tudo o que nós vimos e ouvimos e das pessoas que encontramos. Tento agora buscar esses detalhes na memória de outros arsnovenses históricos, como Márcio Veloso e Marcos Thadeu. É quase certo que cantamos o “Galo garnizé” e o “É a ti, flor do céu”, com seu belo solo na voz do soprano Maria Eugênia Meirelles, ou talvez do mezzo Lourdes Maria Pereira, duas grandes solistas do coro de então e de sempre. Em ambas as apresentações, recebemos aplauso entusiástico da plateia e fartos elogios do apresentador e dos jurados, o que nos deixou emocionados e muito animados. 

Mas, para vários de nós, o que ficou bem gravado até hoje foi uma história curiosa e engraçada que só poderia acontecer em um programa desse tipo. Entre os músicos desconhecidos havia essa dupla de música sertaneja, cujo nome não consigo recuperar, que entregou ao Flávio o disco gravado e cantou “Moça gorda”, uma toada de letra cômica e que hoje seria considerada politicamente incorreta, descrevendo o trabalho estafante de uma costureira e seus 20 ou 30 ajudantes, ao tentar ajustar o vestido de noiva na Chica Constância, a moça gorda, no dia do seu casamento. Achamos muita graça na música e nos dois cantores, conversamos e nos solidarizamos com eles ao vê-los decepcionados por ter a canção sido rejeitada pelo apresentador. Não houve quebra do vinil e a dupla frustrada acabou deixando conosco o disco, um compacto que foi muito ouvido por nós, sempre com risadas. Até hoje nos lembramos da melodia e de um dos poucos versos da toada que costumávamos cantar nas nossas festinhas.

Durante a redação desse texto, por pura curiosidade e com espanto, pesquisando no Google encontrei “Moça gorda” como sendo canção de autoria de Zé Fortuna e Pitangueira, dois irmãos paulistas compositores do estilo sertanejo daquela mesma época. Não cheguei a saber se os dois seriam os mesmos da pobre dupla rejeitada pelo apresentador e seu júri. Se o são, talvez tenham encontrado no programa do Flávio a primeira grande chance de deixar, de alguma forma e apesar da rejeição, a sua música para a posteridade. 

Para o Ars Nova, apresentar-se no programa naquele tempo representou simplesmente a primeira grande chance de o Coral levar, nas duas noites, a sua imagem e o seu canto a quase todo o Brasil e, poucas semanas depois, ao mundo. 

Ana Maria Lana, contralto

(1967 – 1971 / 2001 – 2004)

Belo Horizonte, 09 de janeiro de 2020

O Ars Nova e nós

A gente sai do Ars Nova, mas o Ars Nova não sai da gente” 

(Márcio J. Veloso) 

A frase acima foi criada e costuma ser repetida pelo Márcio, um dos primeiros membros do Ars Nova e que conhece e guarda na memória uma grande quantidade de fatos, eventos, datas e dados desse Coral que ele ajudou a fundar e a administrar e que nunca saiu da sua vida. Essa frase não é, portanto, uma figura de retórica. Imagino que a grande maioria de nós, antigos arsnovenses, deva saber a que se refere: àquele conjunto de experiências de aprendizado musical, expressão artística, vivência de emoções, contato com outras culturas, além do aperfeiçoamento profissional e pessoal surgido dessas experiências e das conexões e relações que se formaram durante a vida no coro e que marcaram para sempre a nossa vida fora dele, permanecendo na nossa memória cognitiva e emocional durante muitos anos, durante décadas.  

Eu sempre tive internamente essa noção, percebida em mim mesma e nos colegas com os quais me relaciono até hoje. Vi a sua expressão em eventos que agregaram número variável de arsnovenses de diferentes épocas, em datas comemorativas e em alguns encontros memoráveis; na tentativa de criação de uma Associação de ex-integrantes e amigos do Ars Nova, nos anos 1980; ou em 2012 e 2013, durante o processo da reestruturação do coro, proposta pelo pró-reitor de Planejamento prof. João Antônio de Paula e comandada pela professora e regente Iara Fricke Matte. Nesse processo formou-se uma comissão de antigos integrantes do Coral, da qual fiz parte ao lado dos baixos Márcio Veloso e Sérgio Cirino, professor da FAFICH, da profa. Aracy Martins (contralto), da FAE, do soprano profa. Mônica Pedrosa, da EM e da figura querida do Julinho Varella, produtor do Ars Nova durante muitos anos, conhecido e amigo de muitos de nós.

Em fevereiro de 2012, começamos a nos encontrar virtualmente  em um grupo de rede social criado por mim em um momento de rara felicidade, onde construímos um espaço para compartilhar memórias, imagens, histórias. O grupo ARS NOVA no Facebook tem hoje 140 membros, na sua grande maioria ex-coralistas, alguns deles vivendo e atuando no canto coral em outros países, além de cantores, regentes ou técnicos que colaboraram com o coro.

Mas foi só recentemente que essa ideia contida na frase do Márcio se cristalizou de modo extraordinário quando, em resposta a um convite (um chamado, eu diria) do regente prof. Lincoln Andrade, nós passamos a nos reunir de maneira informal e permeada de afeto, dessa vez em encontros quase festivos, ensaios e conversas infindáveis em redes sociais, para participar dos concertos comemorativos dos 60 anos do Coral, realizados em dezembro.  Tudo começou com uma turma pequena, cujo entusiasmo com a ideia de cantar junto com esse que já foi o nosso Coral espalhou-se em pouco tempo, acompanhado da responsabilidade e, por vezes, até do leve temor de não conseguir corresponder à qualidade do coro atual. Somos agora, no grupo que vem se encontrando virtual ou presencialmente, algumas dezenas de arsnovenses de diferentes épocas, idades e profissões e, dentre os profissionais da música, cantores, instrumentistas e regentes de corais em Minas e em outros estados.

Batizados pelo maestro Lincoln – com sua elegância e humor fino – como o “Núcleo Histórico do Ars Nova”, durante a experiência emocionante de cantar três peças do seu repertório clássico com o coro atual, nós, arsnovenses “históricos”, formamos agora um grupo que não quer mais deixar de se encontrar, seja nos “chats”, seja em encontros presenciais que já estão sendo planejados para incluir o canto de peças que nos emocionam até hoje, reforçando conexões que foram geradas e serão mantidas pela beleza e energia de cantar em grupo, especialmente nesse que traz consigo a experiência de ter pertencido ao Ars Nova. E também, como não poderia deixar de ser, para seguir relembrando tantas histórias e momentos incríveis de todo tipo, podendo continuar a servir como fonte e registro de memórias no já extenso imaginário do Coral.

O Núcleo Histórico do Ars Nova-Coral da UFMG já existe e é real, graças à percepção que teve o maestro da força dessas experiências e conexões, vividas por nós e construídas ao longo de seis décadas de um trabalho musical de alta qualidade e reconhecido por ele desde há muito tempo. Somos gratos ao maestro por ter-nos visto desta forma sensível e respeitosa. Na nossa percepção, o Núcleo não nasceu para ser uma Associação de ex-coralistas e nunca irá precisar ter registro em cartório. Nasceu de forma espontânea, a partir de um convite e de uma ideia de forte conteúdo afetivo, dirigidos a um grande grupo que nunca conseguiu se dispersar inteiramente. E foi batizado para ser um apoio natural e informal ao Ars Nova de hoje e para continuar a cantar, da maneira que for, com quantos nós formos, juntos ou separados, o seu repertório histórico e, assim conectados, seguirmos contando e ajudando a manter viva essa rica e bela história que começou há 60 anos.

Que possamos também manter vivos essa ideia, essa forma, esse afeto. E que tenha longa vida esse Coral que não sai da vida da gente.

Ana Maria A. Lana, contralto

(1967 – 1971 / 2001 – 2004)

 Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2019