O Ars Nova e nós

A gente sai do Ars Nova, mas o Ars Nova não sai da gente” 

(Márcio J. Veloso) 

A frase acima foi criada e costuma ser repetida pelo Márcio, um dos primeiros membros do Ars Nova e que conhece e guarda na memória uma grande quantidade de fatos, eventos, datas e dados desse Coral que ele ajudou a fundar e a administrar e que nunca saiu da sua vida. Essa frase não é, portanto, uma figura de retórica. Imagino que a grande maioria de nós, antigos arsnovenses, deva saber a que se refere: àquele conjunto de experiências de aprendizado musical, expressão artística, vivência de emoções, contato com outras culturas, além do aperfeiçoamento profissional e pessoal surgido dessas experiências e das conexões e relações que se formaram durante a vida no coro e que marcaram para sempre a nossa vida fora dele, permanecendo na nossa memória cognitiva e emocional durante muitos anos, durante décadas.  

Eu sempre tive internamente essa noção, percebida em mim mesma e nos colegas com os quais me relaciono até hoje. Vi a sua expressão em eventos que agregaram número variável de arsnovenses de diferentes épocas, em datas comemorativas e em alguns encontros memoráveis; na tentativa de criação de uma Associação de ex-integrantes e amigos do Ars Nova, nos anos 1980; ou em 2012 e 2013, durante o processo da reestruturação do coro, proposta pelo pró-reitor de Planejamento prof. João Antônio de Paula e comandada pela professora e regente Iara Fricke Matte. Nesse processo formou-se uma comissão de antigos integrantes do Coral, da qual fiz parte ao lado dos baixos Márcio Veloso e Sérgio Cirino, professor da FAFICH, da profa. Aracy Martins (contralto), da FAE, do soprano profa. Mônica Pedrosa, da EM e da figura querida do Julinho Varella, produtor do Ars Nova durante muitos anos, conhecido e amigo de muitos de nós.

Em fevereiro de 2012, começamos a nos encontrar virtualmente  em um grupo de rede social criado por mim em um momento de rara felicidade, onde construímos um espaço para compartilhar memórias, imagens, histórias. O grupo ARS NOVA no Facebook tem hoje 140 membros, na sua grande maioria ex-coralistas, alguns deles vivendo e atuando no canto coral em outros países, além de cantores, regentes ou técnicos que colaboraram com o coro.

Mas foi só recentemente que essa ideia contida na frase do Márcio se cristalizou de modo extraordinário quando, em resposta a um convite (um chamado, eu diria) do regente prof. Lincoln Andrade, nós passamos a nos reunir de maneira informal e permeada de afeto, dessa vez em encontros quase festivos, ensaios e conversas infindáveis em redes sociais, para participar dos concertos comemorativos dos 60 anos do Coral, realizados em dezembro.  Tudo começou com uma turma pequena, cujo entusiasmo com a ideia de cantar junto com esse que já foi o nosso Coral espalhou-se em pouco tempo, acompanhado da responsabilidade e, por vezes, até do leve temor de não conseguir corresponder à qualidade do coro atual. Somos agora, no grupo que vem se encontrando virtual ou presencialmente, algumas dezenas de arsnovenses de diferentes épocas, idades e profissões e, dentre os profissionais da música, cantores, instrumentistas e regentes de corais em Minas e em outros estados.

Batizados pelo maestro Lincoln – com sua elegância e humor fino – como o “Núcleo Histórico do Ars Nova”, durante a experiência emocionante de cantar três peças do seu repertório clássico com o coro atual, nós, arsnovenses “históricos”, formamos agora um grupo que não quer mais deixar de se encontrar, seja nos “chats”, seja em encontros presenciais que já estão sendo planejados para incluir o canto de peças que nos emocionam até hoje, reforçando conexões que foram geradas e serão mantidas pela beleza e energia de cantar em grupo, especialmente nesse que traz consigo a experiência de ter pertencido ao Ars Nova. E também, como não poderia deixar de ser, para seguir relembrando tantas histórias e momentos incríveis de todo tipo, podendo continuar a servir como fonte e registro de memórias no já extenso imaginário do Coral.

O Núcleo Histórico do Ars Nova-Coral da UFMG já existe e é real, graças à percepção que teve o maestro da força dessas experiências e conexões, vividas por nós e construídas ao longo de seis décadas de um trabalho musical de alta qualidade e reconhecido por ele desde há muito tempo. Somos gratos ao maestro por ter-nos visto desta forma sensível e respeitosa. Na nossa percepção, o Núcleo não nasceu para ser uma Associação de ex-coralistas e nunca irá precisar ter registro em cartório. Nasceu de forma espontânea, a partir de um convite e de uma ideia de forte conteúdo afetivo, dirigidos a um grande grupo que nunca conseguiu se dispersar inteiramente. E foi batizado para ser um apoio natural e informal ao Ars Nova de hoje e para continuar a cantar, da maneira que for, com quantos nós formos, juntos ou separados, o seu repertório histórico e, assim conectados, seguirmos contando e ajudando a manter viva essa rica e bela história que começou há 60 anos.

Que possamos também manter vivos essa ideia, essa forma, esse afeto. E que tenha longa vida esse Coral que não sai da vida da gente.

Ana Maria A. Lana, contralto

(1967 – 1971 / 2001 – 2004)

 Belo Horizonte, 26 de dezembro de 2019