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Estudo introdutório de técnicas e práticas composicionais
de música mista interativa [2018s2]


aula 02 [22/ago/2018]




José Henrique Padovani









[1] causalidades "fantásticas"*

leitura/discussão em torno de The Metaphysics of Live-Electronics, Jonathan Harvey


* como em "literatura fantástica"



[2] Pure Data / SuperCollider / Max: princípios gerais de funcionamento




...o problema central da novelística é a causalidade. Uma das variedades do gênero, a morosa novela de personagens, finge ou dispõe uma concatenação de motivos que propõem-se não diferir daqueles do mundo real. (...) [Já] na novela de vicissitudes, essa motivação é improcedente... (...). Uma ordem muito diversa as rege, lúcida e atávica. A primitiva claridade da magia.

















Esse procedimento ou ambição dos homens antigos foi submetido por Frazer a uma conveniente lei geral, aquela da simpatia, que postula um vínculo inevitável entre coisas distantes, seja porque sua figura é igualmagia imitativa, homeopática – seja por efeito de uma proximidade anteriormagia contagiosa.









Exemplo da segunda era o unguento curativo de Kenelm Digby [ver Powder of Sympathy], que não se aplicava na verdadeira ferida, mas no lume delinquente que a inflingiu – enquanto aquela, sem o rigor das curas bárbaras, ia cicatrizando.

Da primeira, os exemplos são infinitos. (...) Os feiticeiros da Austrália Central causam-se ferimentos no antebraço que fazem correr o sangue, para que o céu, imitativo ou coerente, se sangre em chuva também. (...) As mulheres estéreis de Sumatra cuidam de um bebê de madeira e o adornam para que ele seja fecundado em seu ventre. Por iguais razões de analogia, a raiz amarela da cúrcuma serviu para combater a icterícia e a infusão de urtigas devia contrariar a urticária.




O catálogo inteiro desse exemplos atrozes ou irrisórios é de enumeração impossível; creio, no entanto, ter alegado o suficiente para demonstrar que a magia é a coroação ou pesadelo do causal, não sua contradição. O milagre não é menos forasteiro nesse universo que naquele dos astrônomos.

Todas as leis naturais o regem, e outras imaginárias. Para o superticioso, há uma conexão necessária não apenas entre uma bala e um morto, mas também entre o morto e uma maltratada efígie de cera, ou a ruptura profética de um espelho, ou o sal que se derruba, ou treze comensáis terríveis. [...]






Procuro resumir o que antecede. Distingui dois processos causais: o natural, que é resultado incessante de incontroláveis e infinitas operações; e o mágico, onde profetizam os pormenores, lúcido e limitado. Na novela, penso que a única possível honradez está no segundo. Fique o primeiro para a simulação psicológica.

(BORGES, Jorge L. "A arte narrativa e a magia" [1932]. in: Obras Completas 1923-1972. 14ª Edição. Bueno Aires: Emecé Editores. 1974, pp. 226-238)
[discussão do texto lido em conjunto com temas relacionados ao trecho de Borges e ao grupo subaquático]












[apresentação inicial dos ambientes PD e SuperCollider]