O que é MT?

O que é MUSICOTERAPIA?

” Musicoterapia é um processo sistemático de intervenção em que o musicoterapeuta ajuda o cliente a promover a saúde  utilizando experiencias musicais e as relações que se desenvolvem através delas como forças dinâmicas de mudança”
Definindo Musicoterapia – 
Bruscia

”A Musicoterapia é o campo da medicina que estuda o complexo som – ser humano – som, para utilizar o movimento, o som e a música, com o objetivo de abrir canais de comunicação no ser humano, para produzir efeitos terapêuticos, psico profiláticos e de reabilitação no mesmo e na sociedade”
Teoria da Musicoterapia – 
Benenzon

“Musicoterapia é a utilização da música e/ou seus elementos (som, ritmo, melodia e harmonia) por um musicoterapeuta qualificado, com um cliente ou grupo, num processo para facilitar e promover a comunicação, relação, aprendizagem, mobilização, expressão, organização e outros objetivos terapêuticos relevantes, no sentido de alcançar necessidades físicas, emocionais, mentais, sociais e cognitivas.  A Musicoterapia objetiva desenvolver potenciais e/ou restabelecer funções do indivíduo para que ele/ela possa alcançar uma melhor integração intra e/ou interpessoal e, conseqüentemente, uma melhor qualidade de vida, pela prevenção, reabilitação ou tratamento”
Federação Mundial de Musicoterapia – 1996

Musica o quê? A Musicoterapia na UFMG

Vídeo feito para o Nas Nuvens… Congresso virtual, que ficou no terceiro lugar no prêmio público, conta um muito sobre o que é Musicoterapia, quem pode ser musicoterapeuta, onde trabalha o musicoterapeuta, quem pode ser atendido pela Musicoterapia, e um pouquinho da Musicoterapia na UFMG.

História da Musicoterapia na UFMG
História da Musicoterapia no Brasil
História da Musicoterapia
Texto retirado de:
BREVE HISTÓRIA DA MUSICOTERAPIA, SUAS CONCEPTUALIZAÇÕES E PRÁTICAS
Clara Costa Oliveira ; Ana Gomes

Na pré-história, a música produzida pelos homens e mulheres de então, era essencialmente uma forma de comunicar, uma expressão da comunidade para consigo e com outros seres humanos (cf. Fregtman, 1989, p. 34), o que se percebe ainda hoje nas sessões de musicoterapia para distintos clientes com diversas patologias inibidoras da comunicação. A vertente comunicacional é uma das mais importantes e capacitadoras da musicoterapia pois indivíduos com limitações desta natureza têm a possibilidade de se expressar através da produção de sons musicais.

Enquanto expressão humana mais premente hoje e em tempos remotos, a música surge também associada aos ritos religiosos, práticas divinatórias sacrificiais, festas populares; temos dados históricos sobre a distinção entre os estilos musicais utilizados para estes diferentes fins.

Contudo, sabemos que o maior dos males do ser humano sempre foi a impotência perante a morte e, neste sentido, a angústia consciente da finitude humana levou os indivíduos a procurarem explicações e modos de exacerbação e de expressão de sentimentos ao mesmo tempo que se tratavam desta aflição incessante (cf. Leinig, 1977, p. 13) através da terapêutica musical. Neste sentido, compreende-se desde muito cedo a utilização de musicoterapia para aliviar as crises existenciais e de ansiedade.

Tal constata-se pela análise de papiros médicos egípcios, ou então considerando os relatos presentes na Bíblia onde consta a terapêutica musical a que foi submetido o rei Saul por David com sua harpa, para se libertar da depressão e dos ataques de raiva, por exemplo (cf. Leinig, 1977, p. 13).

Na mitologia grega, Apolo era para além do deus da medicina, o deus da música. Com efeito, ao longo da história da humanidade as práticas de cura e a música surgem intercruzadas, dado ser a música considerada uma de várias práticas curativas, ou pelo menos cuidadoras. Em conformidade com a cultura helénica, Francis Bacon considerava que os investigadores “fizeram bem unindo a Medicina e a música em Apolo; porque o ofício da medicina nada mais é que afinar a curiosidade, harpa do corpo humano, e levar harmonia” (Bacon, 2002, p. 65). O equilíbrio entre corpo e espírito, conforme as culturas era, e é, a pretensão primeira da música, como prática terapêutica de saúde. Apolo era considerado um dos deuses do Olimpo mais conceituados e requisitados pelos mortais pelo fato de pertencer a ele a arte da cura. Apesar da música ser produzida e utilizada para diversos fins pelo ser humano desde tempos remotos, a palavra que passa a identificar a música enquanto tal, surge com a cultura grega.

Os gregos foram sem dúvida os mais prestigiados preconizadores desta terapêutica. Os grandes pensadores da Grécia, os primeiros filósofos, já compreendiam as potencialidades musicais no tratamento de distintas enfermidades. Neste sentido, é que Leinig afirma que como

Hipócrates foi chamado o Pai da Medicina, podemos reconhecer em Platão e Aristóteles os precursores da Musicoterapia. Platão recomendava a música para a saúde da mente e do corpo, e para vencer as angústias fóbicas. Aristóteles descrevia seus benéficos efeitos nas emoções incontroláveis e para provocar a catarse das emoções” (Leinig, 1977, p. 15).

Grandes nomes da cultura grega antiga se associam à impulsão da musicoterapia. Os gregos utilizavam a música numa lógica preventiva e curativa, muitos eram os que a aconselhavam e demonstravam seus enormes benefícios.

Pitágoras desenvolveu a noção de cura através dos intervalos rítmicos da melodia musical, considerando que a música continha efetivos poderes curativos quando bem empregue, intitulando esta terapêutica como ‘purificação’ (cf. Watson et al, 1987, p. 23): “[…] a música restaurava a harmonia tanto por refletir os números do macrocosmos (Pitágoras – ou o “efeito alopático”) quanto por purificar o corpo através de atividade catártica (Aristóteles e o “efeito isopático”)” (Ruud, 1990, p. 16).

Durante o período arcaico, sabe-se que por volta do século VII existiu uma escola de música para mulheres, liderada pela poetisa Safo, também música e musicoterapeuta (cf. Borges & Cardoso, 2008, p. 20). Já então se sabia dos benefícios que a musicoterapia trazia ao bem-estar do indivíduo, de uma forma plena e permanente. Percebia-se a saúde como um estado de equilíbrio entre corpo e mente e a música, desempenhando a música uma fonte de harmonia na natureza humana (cf. Sousa, 2005, p. 122).

No concernente às crenças musicoterápicas de Aristóteles, o filósofo acreditava que a música produzida por instrumentos de sopro, como a flauta, suscitava emoções fortes e podia conduzir a um estado de libertação catártico. Nesta medida é ainda interessante salientar que o povo grego tinha por hábito fazer as refeições acompanhado pelo som da citara, para facilitar a digestão. Do mesmo modo, consideravam que a música de tipo eólico e portanto, repetitivo, era terapêutica em perturbações do foro mental (cf. Watson et al, 1987, p. 23) pelo que percebemos hoje o poder hipnótico de uma música com repetições rítmicas e melódicas. Uma das primeiras noções de musicoterapia encontradas na história da humanidade é referente ao seu uso enquanto mecanismo de fortalecimento da mente, poder profilático da música (cf. Ruud, 1990, p. 16), que potencia o restabelecimento do equilíbrio natural do organismo humano.

Aristóteles defendia uma concepção holista acerca dos efeitos da musicoterapia no Homem pois, segundo Verdeau-Paillés e outros, a melhor educação seria aquela que fosse conseguida através da música, visto que a harmonia e o ritmo conseguem penetrar no mais íntimo do ser, fornecendo sabedoria (cf. Verdeau-Paillés et al; 1995, p. 130).

No período helénico, surge aquilo que é – no nosso entender – o verdadeiro sentido de música enquanto terapia de cuidado e reabilitação para indivíduos portadores de patologias. Nesta medida é que desde então se vem compreendendo que o “conceito de uma força terapêutica ou “harmonizadora” na música tem prevalecido na estética e educação musical desde a Grécia antiga” (Ruud, 1990, p. 15).

A partir do Helenismo, os grandes géneros musicais entram em decadência. Afirma-se em contrapartida, o virtuosismo dos cantores e o profissionalismo dos músicos. Procura-se explorar ao máximo o ethos musical. Este pode definir-se como a capacidade intrínseca dos sons para produzir no ouvinte efeitos de ordem afectiva ou psicológica (Borges; Cardoso, 2008, p. 25)

O império romano herdou grande parte dos hábitos culturais da civilização grega contudo, a aplicação da música em terapêuticas de cuidado de saúde, foi-se degradando com o passar dos séculos. Pode mesmo afirmar-se o desaparecimento da terapêutica musical no ocidente, sendo que, com a queda posterior do império romano, as formas de cura retornaram ao sentido mágico-divinatório (cf. Sousa, 2005, p. 122).

Na época da cristianização da Europa, na zona islâmica surgia um grande desenvolvimento cultural e científico e, desta forma, mediante um dos grandes mestres da medicina árabe da época que era Avicena, a música era utilizada como um agente medicamentoso, tal como o ópio e outros entorpecentes (cf. Leinig, 1977, p. 16).

As conquistas do cristianismo e, posteriormente, a implementação do catolicismo romano no nosso continente, tiveram total influência na produção musical da época através de música única e exclusivamente erudita, com sentido de louvor a Deus. Assim, a música produzida durante esta era, Idade Média, era somente cantada e pertencia ao domínio eclesiástico. Existiam distintos tipos de canto entre os quais, o mais conhecido, canto gregoriano.

Ainda hoje presente em muitas culturas, mas mais ainda no cristianismo da Idade Média, no que se refere à musicoterapia,

“[…] empregavam-se todas as forças espirituais, internas e externas, com a finalidade de combater o mal, a enfermidade ou o sofrimento. Entre essas forças estava a música considerada como capaz de afastar transitoriamente, a sensação de dor e ansiedade e com isso trazer uma maneira de alívio. Suspeitavam alguns investigadores, que certos sons, como os dos sinos das igrejas podiam, em princípio, haver servido para fins exorcísticos, isto é, expulsar do templo os espíritos do inferno” (Leinig, 1977, p. 14).

Durante a renascença, “entre os processos de tratamento pela recreação, a música se impôs como um dos meios mais eficazes” (Leinig, 1977, p. 16) para processos de educação e reeducação de indivíduos em reabilitação. A utilidade da música no renascimento veio, tal como muitas áreas científicas e culturais, renascer, existindo portanto uma tentativa de continuidade do que na antiguidade se tinha efetivado. Logo, no que concerne à utilização e ilustração da música como terapia de promoção de saúde, distintos nomes ao longo da história acentuaram a importância desta prática. Por volta do século XVII,

“[…] a filosofia mecanicista de Descartes, combinada com a “teoria do afeto” da estética musical do barroco, estabeleceram as bases para uma teoria da musicoterapia. Essa teoria salientava que os intervalos da música podiam expandir ou contrair o spiritus animale do corpo e, portanto, influenciar de maneira directa o estado da mente” (Ruud, 1990, p. 17).

Neste tempo deu-se simultaneamente o ressurgimento e um novo surgimento da medicina empírica e com ele, depois das novas descobertas médicas, a música foi primordialmente incluída juntamente com as novas terapêuticas (cf. Leinig, 1977, p. 15).

A emancipação perdura e permanece pelos séculos chegando ao século XIX onde

“[…] o Positivismo e o Evolucionismo não deixam de inocular, nos primeiros esforços de sistematização musicológica, a concepção de Música como progresso permanente, imparável, desde as estruturas consideradas primitivas, às mais perfeitas” (Borges; Cardoso, 2008, p. 8).

Com, sobretudo, o avanço imenso da tecnologia na área da biomedicina, a música foi perdendo muito do seu designado “poder” durante o século XIX, devido à degradação da compreensão estética em medicina (cf. Ruud, 1990, p. 17), bem como à industrialização no mundo laboral que veio reforçar um paradigma biotecnológico, com a exacerbação da máquina em detrimento do natural.

A prática musicoterápica, já por princípios do século XX “não é um método novo, mas sim uma redescoberta das utilizações terapêuticas da música” (Mourão, 1996, p. 22). Concretamente, e abordando a aplicabilidade da musicoterapia, até ao século passado a musicoterapia era uma terapêutica aplicada exclusivamente pelo médico, com o auxílio de músicos. No entanto, a partir de meados do século XX, deu-se o aparecimento dos primeiros musicoterapeutas conhecedores de todos os campos envolvidos, quer o medicinal, quer o terapêutico, quer ainda o musicológico (cf. Sousa, 2005, p. 123).

Por volta dos anos 40 do século passado, a musicoterapia foi aplicada aos soldados vindos da segunda guerra mundial por condição das distintas maleitas adquiridas em campo de batalha.3 Em finais dos anos 60, surgem novos estilos musicais e, com eles, propósitos bem distintos através da sua audição e execução. “A música New Age baseia-se na ideia de que podemos criar música para alterar nosso estado de espírito e expandir nossa consciência” (Watson e Drury, 1987, p. 89). Os anos 60 do século passado (re)direcionaram-se para a medicina holista e com ela, estes novos estilos musicais estimuladores e desinibidores surgiram. Deparamo-nos neste tempo histórico com a utilização da música para a alteração de estados de consciência que podem ser utilizados para o tratamento de distintas patologias físicas e/ ou psíquicas. Este estilo musical caracteriza-se pela música electrónica que abre um novo campo de interesse para os terapeutas por permitir a comunicação entre o ser humano e o mundo pela explanação de emoções (cf. Alvin, 1997, p. 15). Tudo isto decorria na mesma época da descoberta do DNA e da lenta imposição paradigmática da biologia molecular na medicina!

Ainda durante o século XX, e após a utilização de musicoterapia em hospitais americanos para o tratamento de veteranos da guerra do Vietname, foi criada em 1950 a Associação Nacional de Musicoterapia nos EUA, no sentido de promover o uso progressivo da música na medicina, fomentar a formação de profissionais qualificados de modo a implementar do curso superior de musicoterapia em muitas universidades, em parceria com escolas médicas e instituições hospitalares (cf. Leinig, 1977, p. 16). A partir desta data pode considerar-se reconhecida a profissão de musicoterapeuta, devidamente formado e atualizado. Estamos perante o advento de uma nova era da musicoterapia que hoje se encontra espalhada por todo o mundo e que, em países como o Brasil ou os Estados Unidos da América, é ciência fulcral para a reabilitação e cuidado em saúde.

Em Inglaterra a musicoterapia sofreu expansão industrial de tal forma que “em 1982 o ex-terapeuta e psicológo Colin Willcox iniciou uma empresa distribuidora, a New Cassettes – especializada em música para terapia, criada para relaxar, inspirar e animar os ouvintes” (Watson e Drury, 1987, p. 94).

Nessa altura, a multiculturalidade musical começa a ser evidente e conhecida em todo o mundo pela existência permanente de intercâmbios culturais. As principais culturas musicais do mundo são estudadas pela etnomusicologia que ressalva o interesse e o extremo valor de culturas musicais como a chinesa, hindu, japonesa, polinésia, egípcia, árabe, hebraica, africana, americana, etc. (cf. Borges; Cardoso, 2008, p. 13). Assim se percebe que

Neste final de século (XX), a utilização da música com fins terapêuticos tem aumentado de importância na maior parte do mundo industrializado. Embora o conceito de uma força terapêutica vinculada à música seja tão antigo como nossa civilização, assim como uma força aparentemente viável na maioria das outras civilizações, alfabetizadas ou não, a prática do uso terapêutico da música nunca esteve antes tão difundida e diferenciada” (Ruud, 1990, p. 13).

No que se refere a Portugal, a musicoterapia enquanto ciência valorizou-se por volta dos anos 70 através da formação de um grupo de investigação do curso de Educação pela Arte (Sousa, 2005, p. 124). Mais tarde, ”[…] em 1989, a Divisão Regional de Educação Especial da Madeira, em colaboração com a Universidade Montpellier, efectua no Funchal o primeiro Curso de Formação de Musicoterapeutas” (Sousa, 2005, p. 124) o que, ainda que em pequena escala, se tem vindo a adotar em mais algumas universidades portuguesas.

Na actualidade e compreendendo a música como uma expressão do Homem para si mesmo, pode perceber-se a existência de uma alteração no paradigma científico de forma a favorecer a musicoterapia em sua compreensão de existência de mudanças potenciadas pela música através da terapêutica (cf. Ruud, 1990, p. 17). A lenta queda do poder do paradigma biomédico (Atlan, 1979), vem potenciar uma nova perspectiva sobre esta terapêutica, uma perspetiva mais holista, onde se compreende o ser humano como um todo, indissociável de si mesmo e das suas patologias (Antonovsky, 1988; Oliveira, 2004).